Cherryweek: Das notáveis crises modernas das redes sociais

Conheça o “Cherryweek”, postagem coletiva de blogueiros sobre um tema


Vejo seu avatar. Ele passa na prova da expansão. Começo a te seguir. Você repete as regras. Estamos ambos aprovados. Trocamos mentions sempre que possível para que comecemos a nos parecer familiar. Torço para que você fale de artistas e temas dos que eu tenha repertório para retrucar ou compartilhar e acrescentar informações a respeito. Que esse ou aquele link que você postar eu possa abrir, achar engraçado, interessante, impressionante e te dar um RT. Assim as coisas se iniciam, até que rola uma primeira DM.

Vejo seu perfil. Ele não é bloqueado, então consigo algumas informações superficiais a seu respeito. Vejo que é da mesma cidade, que não está (pelo menos no status) em um relacionamento sério. Se estiver disponível, vejo um ou outro álbum de fotos. Recebo um “ok” mental e clico em “cutucar”. Em breve, recebo uma “cutucada” de volta, que demonstra o seu interesse. Penso se cutuco novamente ou se adiciono de vez. Cutuco. Sou cutucado. Adiciono. “Fulano de Tal aceitou sua solicitação de amizade”. Esperamos ansiosamente nos encontrarmos online ao mesmo tempo no Face Chat.

As redes sociais andam muito mais que socializando. Arriscaria-me a fazer um trocadilho besta e dizer que elas estão é muito mais “sensualizando”. E aqui, mais uma vez, rodeado de clichês, que atire a primeira pedra quem nunca, não é mesmo? Twitter e Facebook talvez sejam os mais atuantes atualmente, mas a “azaração” nas redes já rolava solta desde o, para muitos falecido, Orkut e seus depoimentos, Fotolog e os comentários sobre as fotografias “photoshopadas” e afins na expectativa de uma resposta, um MSN trocado, um papo mais íntimo.

Conheço namoros que começaram assim e deram certo. Uma cutucada, uma DM, um depoimento e um papo melhor executado via MSN. Afinal, a internet está sempre a favor dos relacionamentos modernos. Calma, aí! Nem sempre. A não ser que exista áudio e vídeo e se perceba entonações, expressões, sorrisos, lágrimas e mais, tudo na internet vira jogo de interpretação textual. Eu escrevo, você lê, interpreta e forma seu conceito sobre.

E aí entram as confusões entre o “sou legal, não estou te dando bola”, o “eu nunca disse que estava a fim de você, disse que te achava legal, que a gente curte coisas parecidas” e tantas outras duplas interpretações que transformam DM em DR, SMS em desafabo e desaforo e, relacionamentos que nunca sequer começaram chegam ao fim. Falamos da dor de cabeça das redes sociais.

Dor criada por nós mesmo, num mundo de ilusões por nós também inventado, graças à internet, suas interpretações e à guerra de sensualidades, avatares encantadores e tantos outros motivos. É tão fácil começar um relacionamento via internet e tão mais fácil ainda pra uma das partes terminá-lo. O problema fica para a pessoa que sobra nisso tudo. Aquela que apostou que agora tinha tudo para dar certo, que eram almas gêmeas.

E aí vem mais tormento: você vira stalker, entra no dilema de querer cortar relações em todas as redes sociais, ao mesmo tempo que quer ter por perto para saber de tudo e acompanhar com acuidade os frutos do seu desejo de que tudo de errado nesta nova relação – quiçá iniciada por um avatar mais interessante que o seu, que mandou uma DM mais interessante que a sua, que mora duas ruas mais próximas que você, que tem um carro melhor que o seu, que vive sozinho diferentemente de você e tantos melhores atrativos contados naquele primeiro papo via MSN entre os dois novos pombinhos.

Parece um mundo de desgraças, não? Mas nem sempre é. Às vezes resta amizade, às vezes a superação da parte que sobrou é maior que tudo o que passaram e a vida segue. Afinal, tudo era virtual. Até o amor. Desses que se vê aos montes por aí, com a banalização do “eu te amo”, entre “<3”, “S2” e “(L)” usados à exaustão nas timelines.

O que importa disso tudo? Saber dosar, aprender a desconfiar, lembrar-se de que o seu avatar não é o único, nem exclusivo, na timeline – e muito menos na vida – alheia. Não se deixar levar por um sorriso na webcam, muito menos por atributos que ficam um pouco mais abaixo desse sorriso na webcam. Nem só de redes sociais vivem os relaciomentos, os casamentos…

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