O cérebro humano e os seus “bugs”

Assim como no mundo virtual, em aplicativos específicos, o nosso cérebro também “dá bug”

Normalmente, quando estamos à frente de qualquer aparelho ou mesmo aplicativos virtuais que nos conectam com tanta gente, sentimos que ele não está funcionando como deveria. Problemas como esse, assim como o que aconteceu na virada de 1999 para o ano 2000, onde todos os sistemas apresentaram falha na transição de milênio, chamamos de “Bug”, que é um jargão internacional usado por profissionais e conhecedores de programação, que significa um erro de lógica na programação de um determinado software. No caso do chamado “bug do milênio”, como todas as datas eram representadas por somente 2 dígitos, os programas assumiam o “19” na frente para formar o ano completo. Assim, quando o calendário mudasse de 1999 para 2000, o computador iria entender que estava no ano de “19” + “00”, ou seja, 1900. Os softwares mais modernos, que já utilizavam padrões mais atuais, não teriam problemas em lidar com isso e passariam corretamente para o ano 2000, mas constatou-se que uma infinidade de empresas e instituições de grande porte ainda mantinham em funcionamento programas antigos, em função da confiança adquirida por anos de uso e na sua estabilidade. Caso as datas realmente “voltassem” para 1900, clientes de bancos veriam suas aplicações dando juros negativos, credores passariam a ser devedores, e boletos de cobrança para o próximo mês seriam emitidos com 100 anos de atraso.

Mas por nossa sorte, este problema foi devidamente resolvido com as substituições desses sistemas antiquados para os atuais, bem mais modernos. Mas essa troca não pode ser feita com o nosso cérebro, que apresenta problemas, não tão graves como essa que você acabou de conhecer, mas mostra que o ser humano não é a prova de falhas como muitos acreditam que seja. Os computadores mais complexos do mundo estão dentro de cada um de nós e se chamam cérebros. Como todo computador é sujeito a erros e conflitos, já dá pra entender que um cérebro humano é sujeito a bugs.

Sabe quando alguém cisma que está vendo a imagem de um santo em uma mancha na janela ou quando você distingue o formato de animais em nuvens? Esse fenômeno se chama Pareidolia e acontece quando interpretamos um estímulo totalmente vago (uma imagem, som ou outros tipos de sinais) como algo cheio de significado. Tudo por causa da mania do cérebro em procurar padrões em tudo. O teste de Rorschach – aquele das pranchas com manchas de tinta em que você tem de dizer o que está vendo – foi criado para explorar a pareidolia e sua possibilidade de revelar o que há na mente das pessoas.

O cérebro humano sente a necesidade de padronizar as coisas que vê para organizar em seu meio externo para uma fácil adaptação. Também chamadas de mensagens subliminares em alguns casos, a Pareidolia tenta dar significado a formas em um contexto, formando rostos e objetos.

Outro acontecimento comum que ocorre ao nosso cérebro é a chamada Falácia do Jogador ou de Gambler, que é a tendência a achar que eventos relacionados a probabilidades podem ser influenciados por eventos aleatórios anteriores. Por exemplo, você joga uma moeda 3 vezes e em todas elas dá coroa. Em que apostaria na quarta vez? A tendência é acharmos que, se já saiu coroa 3 vezes, a próxima deverá ser cara. Mas a probabilidade, é claro, continua sendo a mesma: há 50% de chance de sair cara e 50% de sair coroa, não importa quantas vezes tenha saído cada um dos lados. Pode parecer óbvio, mas esse erro de pensamento é responsável por fazer com que muita gente perca dinheiro em jogos de azar.

Agora imagine que você é o gerente de uma firma e um dos seus empregados chegou atrasado ao trabalho nos últimos 3 dias. Quando fica sabendo disso, você conclui que o cara é um preguiçoso que não dá valor ao emprego. Pode haver inúmeras razões justas e possíveis para os atrasos e o empregado pode ter muitas qualidades. Mas, por causa dessa falha cognitiva chamada Efeito Halo, você passa a julgar a pessoa como um todo com base nesse único aspecto. Outro exemplo disso é o pensamento “se o cara é famoso, então ele também é confiável”. Ou “se é loira, é burra”. A falsa “primeira impressão” que muitos têm dos outros se caracteriza nesse tipo de bug cerebral.

Erros causados à primeira impressão para uma outra pessoa pode influenciar eternamente o relacionamento destas, por causa do Efeito Halo, que insiste em relacionar falhas em pessoas com boas intenções, mesmo que o trabalho feito por esta seja excelente.

Em uma comparação em ter vinte reais agora ou esperar cem reais daqui há um ano, a maioria das pessoas age como criança nessa hora e prefere garantir os R$20,00  a esperar um ano, mesmo que seja para receber uma quantia 5 vezes maior. O viés do desconto hiperbólico ou gratificação instantânea faz com que sempre prefiramos benefícios imediatos a gratificações posteriores, mesmo que isso envolva perdas. É o que ocorre com quem prefere comprar algo a prazo em vez de guardar dinheiro e esperar um pouco mais para pagar à vista, ainda que os juros a serem pagos quase dobrem o valor da mercadoria.

O que não tem nada a ver com o Efeito Placebo, que apesar de não ser conhecido pelo nome, ocorre quando uma substância sem nenhuma propriedade medicinal é dada a um doente com a promessa de que irá curá-lo e acaba realmente melhorando os seus sintomas. Esse fenômeno é tão forte que chegam a ocorrer alterações fisiológicas na pessoa – mas, diferente de um tratamento de verdade, esses efeitos são passageiros. Por isso, o efeito placebo é usado em testes para determinar se determinados medicamentos funcionam ou não.

Muitos médicos também podem atribuir efeito placebo a medicamentos com princípios ativos, mas que apresentam efeitos terapêuticos diferentes do esperado. Por exemplo, um comprimido de vitamina C pode aliviar a dor de cabeça de quem acredite estar ingerindo um analgésico, sendo um exemplo clássico de que o que cura é não apenas o conteúdo do que ingerimos mas também a forma.

E você sabe por que as pessoas que jogam dados em cassinos costumam soprá-los ou agitá-los bem antes de lançá-los à mesa? Tudo culpa da chamada ilusão do controle. Trata-se da tendência de acreditar que podemos controlar ou, pelo menos, influenciar acontecimentos sobre os quais não temos nenhum controle. Quando acertam o resultado do lançamento de um dado, por exemplo, a pessoa interpreta isso como a confirmação de que tem algum controle sobre o evento, sem considerar que havia, de fato, 1/6 de chance de acertar. Outro exemplo é quando, numa mesa de RPG, você está enfrentando um inimigo poderoso e acha que, se ficar entoando “falha crítica, falha crítica” a cada vez que o mestre joga os dados, terá mais chances de vencer. Essa falha cognitiva está ligada à superstição e é responsável por fazer as pessoas repetirem certos rituais, como soprar os dados, usar um “anel da sorte” ou coisa do tipo, achando que isso poderá influenciar acontecimentos futuros.

A ilusão de controle e a pura sorte podem andar juntas. Quando algo que é almejado acontece de fato, a pessoa pode sentir que tem o absoluto controle e que as coisas funcionarão da forma que ela acha que ela quer, mas isso não passa de ilusão.

Por: Raphael Ezonne

 

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