Livro oculta simplicidade e evidencia potência histórica da moda

Livro lançado no Brasil mostra qual a verdadeira moda das épocas passadas, sem descuidar dos detalhes

Divulgação

Adaptado de UOL/ Mariana Rocha

É com alegria que estudantes, professores e pesquisadores de moda recebem a edição brasileira do livro “História do vestuário no Ocidente” de François Boucher, que acaba de ser lançada pela Cosac Naify.

Para os acadêmicos e estudiosos, a obra se mostra obrigatória. A moda, tratada normalmente como frivolidade, revela aqui sua potência como índice de acontecimentos históricos, muitas vezes não detectáveis a partir da leitura linear dos fatos.

Se a lógica leva a crer que as vestes tenham surgido de uma necessidade de proteção, como se explica que “os primeiros habitantes parecem ter usado, antes […] de qualquer ‘roupa’, apenas enfeites, como colares e braceletes […]”? E o esforço de se desenvolver corantes azuis, vermelhos, liláses para as vestes primitivas? De certo não foi por força do clima.

Divulgação
No tempo de Luis 14, na França, os trajes masculinos eram mais enfeitados que os das mulheres.

As necessidades primárias e as implicações econômicas e políticas estão lado a lado com o estilo de vida e com a mentalidade da época, criando, no texto, uma abordagem moderna que envolve as questões coletivas, caras à moda, e a porção de subjetividade, fundamental quando se pensa a moda como participante das construções de individualidades.

Publicado originalmente em 1965, um ano antes da morte do autor, e, considerado a bíblia dos estudiosos de moda, o volume apresenta uma cronologia do vestuário que vai da pré-história ao final do século 20, o que foi possível graças à atualização e ampliação da coautora Yvonne Deslandres.

A influência severa do traje espanhol pode ser notada no retrato do pintor Rubens e de sua esposa, Isabela. Era a elegância no século 17.

Além de Boucher, fundador da União Francesa das Artes do Costume, e de Deslandres, que iniciou os estudos científicos na França sobre a vestimenta, o time de pesquisadores é de primeira, formado por curadores e especialistas de alguns dos museus mais importantes da área. Detectar a credibilidade dos envolvidos no trabalho é fundamental, já que o universo da moda é recheado de amadores e amantes que falam como especialistas, mas nem sempre o são.

O rigor na terminologia e o olhar atento aos pequenos detalhes proporcionam uma leitura profunda de fatos e significados. A organização do livro e a pertinência das ilustrações permitem uma consulta fácil e rápida, para um momento mais corrido.

Tutancâmon e sua esposa Arikhenesamon, da 18ª dinastia do Egito (1350 ? 1340 a.C) tem estilo, não?

O que mais encanta, no entanto, são as descrições, de tom saboroso e preciso: “Em seguida as peças eram reunidas e costuradas com fios extraídos de nervos de animais – tendões de renas, por exemplo – ou retirados de crina e da cauda do cavalo por meio de pinças e agulhas de osso, marfim ou corno de rena com orifício, que encontramos até nas cavernas paleolíticas da Crimeia”. Ou: “[…] a pele aberta sobre um plastrão ricamente trabalhado no mesmo tom carmim que o fundo e o chapéu enfeitado com penduricalhos”. Em alguns momentos, parecem tocar a poesia: “[…] festões de dentes de foca encontrados sobre esqueletos femininos […]”.

Na Espanha, em meados do século 17, o volume das saias se projeta para as laterais. Na imagem, a Infanta Maria Teresa de Vélasquez.

Dedicada principalmente à vestimenta feminina, a obra nos permite ainda observar outras esferas da moda, como as roupas masculinas, o traje infantil e o religioso, e a evolução das roupas militares. Adornos e maquiagem também foram contemplados e analisados cuidadosamente no volume.

Algumas curiosidades enfatizadas pelo autor tornam o livro interessante também para os leigos. É o caso da similaridade existente entre a roupa do homem e da mulher na Europa até o século 15, ou os adornos e chapéus de enormes proporções usados na França de Maria Antonieta. As reproduções de pinturas de artistas como Velázquez e Nattier também podem despertar interesse do público em geral.

Há tempos a Cosac Naify se ocupa em editar livros de apoio ao estudo da moda, como “Fashion Design” ou a coleção “Moda brasileira”. Comparada a essas publicações e às edições estrangeiras, a edição brasileira merecia um visual mais charmoso. Uma capa dura não seria má ideia, devido ao tamanho do volume. De todo modo, com essa publicação, a editora possibilita o acesso a uma das mais importantes obras da área, acompanhando a democratização da moda como linguagem e também como campo de pesquisa. A tradução competente de André Telles deve ser citada e pode vir a se tornar referência para a padronização da terminologia da moda no Brasil.

“HISTÓRIA DO VESTUÁRIO NO OCIDENTE”

Autor: François Boucher
Coautor: Yvonne Deslandres
Editora: Cosac Naify
Tradução: André Telles
Preço: R$ 165, em média (480 páginas)

Por: Raphael Ezonne

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s